O registro feito pela Polícia Civil trouxe novos detalhes sobre o episódio envolvendo o servidor municipal Levi Fernando Gomes, de 51 anos, ocorrido na manhã desta sexta-feira (11), no Paço Municipal de Araçatuba. O documento registra como naturezas da ocorrência ameaça, prevista no artigo 147 do Código Penal, e embriaguez, prevista no artigo 62 da Lei das Contravenções Penais. Não houve prisão em flagrante.
Levi, que trabalha como operador de máquinas pesadas da Prefeitura e foi candidato a vereador em 2024 pelo Democracia Cristã (DC), partido que integrou a coligação que elegeu o prefeito Lucas Zanatta (PL), foi conduzido à Central de Polícia Judiciária (CPJ) depois de ser abordado pela Guarda Civil Municipal no Paço.
Testemunhas afirmaram que o servidor teria feito ameaças de agressão física contra o prefeito Lucas Zanatta e o secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Constantino Alexandre Vourlis. Os dois aparecem formalmente no registro policial como vítimas.
Levi, entretanto, negou à Polícia Civil ter ameaçado o prefeito ou o secretário. Disse que foi ao Paço Municipal para conversar diretamente com Zanatta e apresentar reivindicações relacionadas às condições de trabalho e ao que considera falta de reconhecimento profissional.
Testemunha diz que servidor falou em “dar um pau no prefeito”
O histórico do boletim registra que a Guarda Municipal foi chamada após a informação de que um funcionário estaria alterado no Paço Municipal e proferindo ameaças contra o prefeito e outros servidores.
Segundo o documento, Levi entrou no prédio por meio de credenciamento facial.
Uma das testemunhas, Rafael Petroli Alves, identificado como diretor da Secretaria de Obras, relatou à Polícia Civil que recebeu telefonemas informando que Levi estava no Paço bastante alterado e fazendo ameaças.
Ao chegar ao local, segundo seu depoimento, encontrou o servidor em “visível estado de alteração emocional”, demonstrando sentimentos de raiva, tristeza e revolta relacionados à situação funcional que estaria enfrentando.
Conforme o relato registrado pela Polícia Civil, Levi teria afirmado inicialmente que havia ido ao local para “dar um pau no prefeito”.
A testemunha afirmou que, posteriormente, já mais calmo, o servidor manifestou forte insatisfação com o secretário de Obras e nervosismo em relação ao prefeito por mantê-lo no cargo.
BO cita expectativa de melhoria funcional após campanha
O boletim acrescenta um elemento político ao episódio.
De acordo com o depoimento de Rafael registrado pela Polícia Civil, a insatisfação do servidor estaria relacionada também a uma “expectativa de melhoria funcional em razão de sua atuação na campanha política do Chefe do Executivo”.
Outra testemunha, Ricardo Bandeira Santos, identificado como diretor de Planejamento e Integração da Gestão Municipal, afirmou que encontrou Levi bastante nervoso e agitado.
Segundo seu relato, o servidor insistia que queria conversar com o prefeito e teria declarado reiteradamente que agrediria Zanatta e o secretário de Obras, alegando que seus problemas profissionais não estavam sendo solucionados.
Ainda conforme o registro policial, Levi teria dito sentir-se prejudicado profissionalmente e perseguido no ambiente de trabalho, além de considerar que seus serviços não estavam sendo reconhecidos pela Administração Municipal.
Levi nega ameaças
Ouvido no plantão policial, Levi apresentou uma versão diferente.
Ele confirmou ser operador de máquinas pesadas da Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos, mas negou ter praticado qualquer ameaça contra Lucas Zanatta ou Constantino Vourlis.
O servidor declarou possuir insatisfações relacionadas às condições de trabalho, à forma de execução dos serviços, às “condições humanas” oferecidas no ambiente laboral e a outras situações dentro da Secretaria.
Disse ainda que foi ao Paço com a intenção de conversar diretamente com o prefeito para expor suas reivindicações e descontentamentos, mas que teria sido impedido por secretários e outros funcionários da Administração.
Segundo a continuidade de sua declaração, após conversar com os envolvidos, houve um entendimento, mas os presentes interpretaram suas palavras e a maneira como se manifestou como ameaças.
Levi também declarou à Polícia Civil que havia ingerido bebida alcoólica na noite anterior, aproximadamente entre 20h e 23h, e reiterou que sua insatisfação dizia respeito exclusivamente às condições de trabalho, reconhecimento profissional e dificuldades enfrentadas no exercício da função.
Exame apontou sinais de efeito de álcool
A informação inicialmente apurada pela reportagem de que seria realizado exame para verificar eventual ingestão de álcool também foi esclarecida pelo registro policial.
A autoridade policial determinou exame clínico de alcoolemia em Levi.
Segundo o boletim, o resultado foi positivo para “facies congesta e hálito etílico”, além de apontar sinais indicativos de que o servidor estava sob efeito etílico. O resultado consta do laudo pericial 400930/2026.
Prefeito e secretário não estavam no Paço
Outro ponto esclarecido pelo boletim é que nem Lucas Zanatta nem Constantino Vourlis estavam no Paço Municipal no momento das supostas ameaças.
Segundo uma das testemunhas, ambos tomaram conhecimento posteriormente, por intermédio de terceiros.
Os dois também não compareceram ao plantão policial para prestar depoimento. O BO informa que suas oitivas poderão ocorrer posteriormente, a critério da autoridade policial responsável pela apuração.
Não houve prisão em flagrante
Após ouvir as testemunhas e o servidor, o delegado plantonista decidiu pelo registro da ocorrência para posterior análise pela autoridade policial responsável.
O boletim tem como solução “apreciação do delegado titular”. O documento também registra orientação quanto ao prazo de seis meses para eventual representação criminal relacionada ao crime de ameaça.
Portanto, apesar de ter sido conduzido à CPJ, Levi não foi preso em flagrante.
A Polícia Civil poderá dar prosseguimento à apuração para esclarecer as circunstâncias e eventual responsabilidade criminal.
Relatos anteriores citavam problemas funcionais
Antes de a reportagem ter acesso ao registro policial, pessoas próximas ao servidor já haviam relatado ao Nossa Cidade que Levi estaria descontente com sua situação profissional.
Essas fontes afirmaram, sem confirmação oficial, que ele acreditava estar sendo preterido na execução de trabalhos após a divulgação de informações sobre o suposto uso de máquinas e equipamentos públicos em um curso particular pago para operadores de máquinas.
Segundo um desses relatos, Levi acreditaria que superiores suspeitavam que ele tivesse repassado essas informações. Uma pessoa próxima chegou a dizer que o servidor estaria sendo “colocado na geladeira”.
O registro policial não menciona o episódio envolvendo o curso ou o eventual uso de máquinas públicas e não estabelece qualquer relação entre esse caso e os acontecimentos desta sexta-feira.
O documento policial, entretanto, registra que o próprio Levi afirmou sentir-se prejudicado profissionalmente e perseguido no ambiente de trabalho, além de reclamar de falta de reconhecimento por parte da Administração.
Quem é Levi Fernando Gomes
Levi Fernando Gomes é operador de máquinas pesadas e servidor de carreira da Prefeitura de Araçatuba. Conforme dados do Portal da Transparência consultados anteriormente pela reportagem, ele foi admitido em 30 de junho de 1994, aos 19 anos, e acumula aproximadamente 32 anos de serviço público municipal.
Além da carreira no funcionalismo, teve participação política recente.
Entre 26 de julho de 2023 e 21 de agosto de 2024, presidiu o diretório municipal do Democracia Cristã (DC). Nas eleições de 2024, o partido integrou, ao lado do PL, a coligação “Araçatuba na Direção Certa”, que elegeu Lucas Zanatta prefeito.
Levi também foi candidato a vereador pelo DC e recebeu 193 votos, sem ser eleito. Constantino Alexandre Vourlis, hoje secretário de Obras e apontado no BO como uma das vítimas das supostas ameaças, também concorreu a vereador pelo mesmo partido naquela eleição.
O episódio desta sexta-feira agora segue para análise da Polícia Civil. As ameaças descritas no boletim correspondem aos relatos das testemunhas e são negadas por Levi, não representando, nesta fase, conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal.






