Viajar pode representar muito mais do que conhecer novos lugares. Pode ser também uma oportunidade de compreender a história, aproximar-se da arte e descobrir como diferentes períodos da formação do Brasil permanecem registrados na arquitetura, na literatura, nas manifestações religiosas e até na paisagem.
Essa é uma das propostas do Turismo Social do Sesc (Serviço Social do Comércio), programa que oferece viagens e hospedagens com foco em conhecimento, cultura, bem-estar e recreação.
Entre os dias 25 e 30 de agosto, um grupo formado por participantes de Araraquara e Bauru percorreu Minas Gerais em uma programação intensa que passou por quatro cidades: Cordisburgo, Belo Horizonte, Brumadinho e Sabará.
O roteiro permitiu conhecer desde a terra natal de João Guimarães Rosa e a Gruta do Maquiné até o conjunto arquitetônico da Pampulha, museus de Belo Horizonte, o Instituto Inhotim e o patrimônio histórico e religioso de Sabará.
Viagem vai além dos passeios turísticos
Um dos diferenciais do programa é o acompanhamento durante o roteiro. Guias de turismo participam da viagem desde o início e, nos destinos, o grupo também conta com profissionais locais, que ajudam a apresentar a história e as características dos pontos visitados. O grupo foi acompanhado pelo guia Jenilson Oliveira e em Minas, teve o acompanhamento e informações da guia e professora Neuma Horta.
Essa estrutura transforma a experiência. Para quem deseja conhecer mais profundamente os destinos, as visitas deixam de ser simples passeios e se aproximam de verdadeiras aulas de história, arte, arquitetura, literatura e cultura brasileira.
Cada uma das quatro cidades apresentou aos viajantes um capítulo diferente dessa história.
Cordisburgo: da arqueologia à literatura

Com aproximadamente 7,5 mil habitantes, Cordisburgo, a cerca de 120 quilômetros de Belo Horizonte, reúne dois importantes capítulos da história brasileira: as pesquisas arqueológicas e paleontológicas desenvolvidas na região e a literatura de João Guimarães Rosa.
Um dos principais pontos turísticos é a Gruta do Maquiné, associada às pesquisas do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, considerado uma figura fundamental para o desenvolvimento da paleontologia, arqueologia e espeleologia no Brasil.
Ao longo de décadas de estudos em cavernas da Bacia do Rio das Velhas, Lund reuniu milhares de peças e encontrou fósseis de animais pré-históricos, como tigre-dente-de-sabre, preguiça-gigante e tatu-gigante.
As pesquisas realizadas na região de Lagoa Santa também contribuíram de maneira decisiva para os estudos sobre a presença humana pré-histórica no território brasileiro.
Terra de Guimarães Rosa

Se as cavernas ajudaram a projetar Cordisburgo no campo científico, a literatura deu à pequena cidade reconhecimento internacional.
Foi ali que nasceu João Guimarães Rosa, um dos maiores nomes da literatura brasileira.
A casa onde o escritor passou parte da infância e onde sua família mantinha um estabelecimento comercial foi transformada em museu.
Médico e diplomata, Guimarães Rosa alcançou projeção principalmente pela literatura. Sua obra mais conhecida, “Grande Sertão: Veredas”, tornou-se referência internacional.
A complexidade da escrita rosiana, marcada por neologismos, regionalismos, recriações vocabulares e experimentações com a língua portuguesa, faz da tradução de suas obras um desafio especial.
Visitar Cordisburgo, portanto, é percorrer ao mesmo tempo o universo científico das cavernas mineiras e o sertão recriado pela linguagem de Guimarães Rosa.
Belo Horizonte simbolizou uma nova capital
A segunda etapa do roteiro levou os participantes a Belo Horizonte, cidade planejada no final do século XIX para substituir Ouro Preto como capital mineira.
Inaugurada em dezembro de 1897 com o nome de Cidade de Minas, passou a se chamar Belo Horizonte poucos anos depois.
A construção da nova capital ocorreu nos primeiros anos da República e representava um projeto de modernização, em contraste com Ouro Preto, antiga Vila Rica, profundamente marcada pelo período colonial.
Belo Horizonte foi implantada na área do antigo Curral Del-Rei e tornou-se uma das primeiras grandes cidades planejadas do Brasil.
Pampulha mostra ligação entre Niemeyer e JK
Na capital mineira, um dos destaques da programação foi o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, ligado a dois personagens fundamentais da arquitetura e da política brasileira: Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek.
O grupo também conheceu a Casa JK, espaço dedicado à preservação da memória relacionada ao ex-presidente, que também foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais.
A relação entre JK e Niemeyer ajudou a produzir algumas das obras arquitetônicas mais emblemáticas do país.
Outro ponto do roteiro foi a Praça da Liberdade, que durante décadas concentrou a sede do Governo de Minas Gerais e suas secretarias. Com a transferência administrativa para a Cidade Administrativa, antigos prédios públicos passaram a integrar um circuito voltado principalmente à cultura.
Museu preserva a história do trabalho

Os viajantes também conheceram o Museu de Artes e Ofícios, instalado em edifícios históricos ligados à antiga estação ferroviária na região central de Belo Horizonte.
Seu acervo apresenta instrumentos, máquinas, equipamentos e objetos relacionados a diferentes atividades desenvolvidas ao longo da história.
Transporte, cerâmica, couro e diversos outros ofícios aparecem representados em centenas de peças.
Parte importante desse acervo teve origem na coleção reunida pela família Gutierrez ao longo dos anos, permitindo preservar objetos que ajudam a contar a história do trabalho no Brasil.
Inhotim: encontro entre arte e natureza

Em Brumadinho, a experiência mudou completamente de cenário.
O destino foi o Instituto Inhotim, espaço que reúne arte contemporânea e jardim botânico em uma extensa área verde.
Concebido a partir da década de 1980 pelo empresário Bernardo Paz e aberto ao público em 2006, Inhotim tornou-se um dos mais conhecidos museus a céu aberto do mundo.
Instalado em uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, reúne galerias, instalações e obras de dezenas de artistas contemporâneos.
O contraste chama a atenção especialmente durante a estiagem. Em uma região marcada em determinados pontos pela paisagem seca, o visitante encontra dentro de Inhotim jardins cuidadosamente mantidos e uma grande diversidade de plantas.
Um dia é pouco para conhecer Inhotim
As dimensões do espaço ajudam a explicar por que uma única visita dificilmente é suficiente para conhecer todas as galerias e obras.
Os trabalhos artísticos estão distribuídos por diferentes áreas e integrados aos jardins, fazendo com que o próprio deslocamento entre uma obra e outra faça parte da experiência.
Além das galerias e áreas externas, Inhotim dispõe de restaurantes, lojas e sistema interno de locomoção para auxiliar os visitantes.
A experiência mistura arte, arquitetura, paisagismo e meio ambiente de uma maneira difícil de encontrar em museus convencionais.
Sabará preserva marcas do período colonial
A última cidade do roteiro foi Sabará, às margens do Rio das Velhas.
A história da ocupação da região está diretamente relacionada às expedições pelo interior e à exploração do ouro. Entre os personagens associados a esse processo está o bandeirante Fernão Dias Paes.
Por volta de 1700, o Arraial da Barra do Sabará já apresentava intensa movimentação e ocupava posição estratégica relacionada à Estrada Real.
Em 1711, foi elevado à condição de Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará. Poucos anos depois, tornou-se sede da extensa Comarca do Rio das Velhas.
Centro histórico é uma viagem no tempo
Percorrer o centro histórico de Sabará é encontrar ruas estreitas, calçamento antigo, casarões, igrejas e construções que preservam características de diferentes momentos da formação de Minas Gerais.
O roteiro turístico inclui ainda teatro, museus e templos religiosos.
Na cidade também é possível observar externamente a casa onde teria vivido Aleijadinho durante aproximadamente 14 anos. O imóvel é particular e não está aberto à visitação.
É nas igrejas, porém, que uma parcela significativa da história artística e religiosa de Sabará permanece preservada.
Igrejas guardam riqueza do barroco mineiro
Entre os principais templos está a Igreja de Nossa Senhora do Ó, também conhecida como Capela do Ó, construída no início do século XVIII e marcada pela riqueza da decoração interna, com talhas douradas e elementos de influência oriental.
A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, cuja construção teve início em 1763, reúne trabalhos atribuídos a Aleijadinho e sua equipe.
Outro destaque é a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, com altares em talha dourada e características marcantes da arquitetura religiosa colonial.
Já a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, iniciada no século XVIII por uma irmandade negra, permaneceu inacabada. Suas paredes e estruturas expostas permitem observar técnicas construtivas utilizadas naquele período.



Quatro cidades, diferentes capítulos da história brasileira
Ao final do roteiro, as quatro cidades visitadas mostraram experiências bastante distintas.
Em Cordisburgo, cavernas, ciência e Guimarães Rosa. Em Belo Horizonte, o nascimento de uma capital planejada, arquitetura e museus. Em Brumadinho, a união entre arte contemporânea e natureza. Em Sabará, o patrimônio colonial, o barroco e a religiosidade.
Mais do que levar participantes de Araraquara e Bauru a Minas Gerais, a proposta do Turismo Social do Sesc proporcionou uma viagem por diferentes períodos da própria formação cultural brasileira.
É justamente essa combinação entre turismo, informação e conhecimento que transforma o roteiro: o viajante não apenas conhece novos lugares, mas volta entendendo um pouco mais da história que ajudou a formar o Brasil.






